Arte e tecnologia: juntas, mas ainda não entrelaçadas

Arte e tecnologia. Talvez essas duas palavras nunca tenham aparecido tanto juntas.

No meu caso, elas começaram a se encontrar antes mesmo que eu percebesse que esse encontro poderia se transformar em pesquisa artística.

Minha trajetória profissional sempre esteve muito próxima da tecnologia, da comunicação e da inovação. Durante anos, acompanhei projetos, empresas, eventos e discussões sobre as transformações provocadas pelo digital. Paralelamente, a arte ocupava um espaço cada vez maior na minha vida, até deixar de ser apenas uma prática para se tornar também uma linguagem, através da qual passei a investigar a influencia da tecnologia na arte e vice-versa.

Há 6 anos mais ou menos esses dois caminhos se cruzaram e passaram a andar lado a lado na minha própria trajetória.

E, desde então, confesso: vivo uma espécie de quebra-cabeça criativo. Estou constantemente tentando descobrir novas maneiras de fazer a arte atravessar a tecnologia — e a tecnologia atravessar a arte.

Não me interessa simplesmente colocar uma tela diante de um equipamento eletrônico e chamar isso de inovação. Tampouco acredito que utilizar inteligência artificial, realidade aumentada, QR Code, projeções ou qualquer outra ferramenta digital seja suficiente para transformar uma obra em “arte e tecnologia”.

A tecnologia, quando entra na arte, precisa ter alguma razão para estar ali.

E talvez seja justamente essa a discussão mais interessante deste momento. Você já percebeu que absolutamente TUDO a nossa volta é tecnologia atualmente. Em especial para nós que vivemos nas cidades, mas o campo também está cada vez mais e mais tecnologico e assim será daqui pra frente. A tecnologia já é tão onipresente que ela desaparece, não a notamos, mas ela está n aluz que acendemos por exemplo e não é novidade.

Um movimento que já chegou às instituições

O crescimento desse território híbrido começa a aparecer de maneira cada vez mais evidente nas instituições culturais e também no interesse das grandes marcas.

No Rio de Janeiro, o Petrobras Futuros – Arte e Tecnologia é um exemplo emblemático. Instalado no Flamengo, o centro cultural, anteriormente conhecido como Futuros – Arte e Tecnologia, iniciou uma nova fase em 2026 com a chegada da Petrobras como patrocinadora. Sua própria proposta institucional coloca lado a lado arte, cultura, ciência e tecnologia, com espaço para experimentação, novas linguagens e experiências imersivas.

Outro movimento significativo veio do Itaú.

O Museu do Amanhã recebeu este ano a exposição “Síntese – Arte e Tecnologia”, idealizada pelo Itaú Cultural a partir de sua coleção dedicada justamente a esse cruzamento. São trabalhos de artistas brasileiros e internacionais que investigam relações entre humanidade, natureza e tecnologia.

Não deixa de ser significativo que duas das maiores empresas brasileiras estejam associando suas marcas a iniciativas desse tipo.

Há algo acontecendo.

Empresas perceberam que inovação não pode ser comunicada apenas por meio de máquinas, dados e eficiência. Existe uma dimensão humana, cultural e imaginativa da tecnologia — e é justamente aí que a arte se torna poderosa.

Mas ainda acredito que podemos avançar muito mais.

Falta arte na tecnologia

Frequento muitos ambientes ligados à inovação. E talvez por isso perceba algo que me incomoda: ainda existe pouca arte dentro do universo da tecnologia.

Falamos de inteligência artificial, cidades inteligentes, robótica, dados, realidade virtual, computação quântica e tantas outras transformações extraordinárias. Criamos eventos gigantescos para discutir o futuro.

Mas, muitas vezes, fazemos isso em ambientes onde quase não existe arte.

Isso é uma contradição.

Porque antes de qualquer tecnologia existir, alguém precisou imaginá-la.

E imaginar é também território da arte.

A arte exercita justamente algumas das capacidades humanas mais importantes para a inovação: curiosidade, experimentação, sensibilidade, interpretação, ruptura e imaginação.

Talvez o setor de tecnologia precise de mais artistas à mesa. Não apenas para “embelezar” seus eventos, produtos ou ambientes, mas para ajudar a formular perguntas que engenheiros, executivos e algoritmos talvez não façam.

E também falta tecnologia na arte

Mas a provocação precisa seguir na direção contrária.

Parte do circuito artístico ainda observa a tecnologia com certa distância — às vezes com curiosidade, às vezes com desconfiança e, em alguns casos, quase como se incorporá-la significasse diminuir a dimensão humana da obra.

Não significa. Porque tecnologia é ferramenta.

Um pincel é tecnologia. A fotografia foi tecnologia disruptiva. O vídeo foi uma ruptura. A internet alterou profundamente a maneira como produzimos, circulamos e consumimos imagens.

Agora temos inteligência artificial, sensores, programação, ambientes imersivos, realidade aumentada, impressão 3D e inúmeras outras possibilidades.

Isso não determina o que é arte. Quem determina é o artista.

A pergunta, portanto, não deveria ser se devemos ou não utilizar tecnologia na produção artística. A pergunta mais interessante é: o que podemos fazer artisticamente com possibilidades que antes simplesmente não existiam?

Arte e tecnologia estarem juntas não é suficiente

Talvez esse seja o ponto central. Arte e tecnologia estão cada vez mais juntas. Nos nomes das exposições. Nos centros culturais. Nos editais. Nos patrocínios. Nos grandes eventos. Nos discursos sobre inovação. Mas colocar duas palavras lado a lado não significa necessariamente entrelaçá-las.

O encontro verdadeiro acontece quando a tecnologia deixa de ser efeito especial e passa a ampliar uma ideia artística. E quando a arte deixa de ser decoração e passa a interferir na maneira como pensamos, desenvolvemos e utilizamos tecnologia.

É esse território que me interessa. Não quero uma arte subordinada à tecnologia, nem uma tecnologia fantasiada de arte. Quero fricção.

Quero artistas utilizando novas ferramentas para criar experiências que antes seriam impossíveis. Quero engenheiros conversando com artistas. Programadores dentro de museus. Artistas dentro de laboratórios de inovação. Empresas de tecnologia financiando experimentação artística. Museus assumindo riscos. Obras físicas atravessando o digital — e o digital devolvendo novas possibilidades ao mundo físico.

Porque talvez a grande oportunidade deste momento não esteja simplesmente em aproximar arte e tecnologia. Elas já estão próximas. Elas andam juntas desde um pincel ou uma tinta industrializada.

O próximo passo é usar naturalmente as novas ferramentas e mentes atuais e ir testando onde uma transforma ou complementa a outra e vice-versa.

 

A obra “A Menina, 2022, acrilica sobre tela, 80X80 cm” ilustra este artigo. Ao lado da imagem tem um QR Code que pode ser lido com a câmera do seu celular para ver a animação feita com IA. É um exemplo de como podemos ampliar uma obra física para o meio digital, o que permite ao artista animador criar uma nova narrativa em outra linguagem ou apenas confirmar a narrativa da obra física também numa outra linguagem, num outro plano ou dimensão. Essa pesquisa é muito interessante e me motiva bastante! ; )

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